Carta de João Carlos Haas Sobrinho aos amigos de Porto Franco, Tocantinópolis e Estreito
Fecha: 1972 09 12
Grupo: Partido Comunista do Brasil (PCdoB)
País: Brasil
Categoria : Comunicado
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Aos amigos de Porto Franco, Tocantinópolis e Estreito

Após alguns anos de ausência, volto a dirigir-me à população dessa região, onde prestei serviços, como médico, durante mais de um ano, em 1967 e 1968. O objetivo desta carta é falar-lhe das luta que eclodiu no Sul do Pará, às margens do rio Araguaia, em abril último, da qual participo juntamente com muitos outros moradores dos municípios de S. João do Araguaia e Conceição do Araguaia.

Na atividade profissional tive oportunidade de tomar conhecimento íntimo com a difícil situação do povo dos sertões do Maranhão e do Norte de Goiás. Qualquer morador é testemunha de que muitas pessoas morriam à mingua, por falta de recursos para tratamento.

Mulheres faleciam por ocasião dos partos, crianças eram vitimadas por verminoses, trabalhadores das matas sofriam violentos acessos de malária, e os que necessitavam de uma operação urgente não tinham tempo de alcançar o hospital mais próximo. Não havia um só médico nas localidades de Porto Franco, São João do Paraíso, Estreito, Araguatins, Itaguatins, Nazaré e Ananás. Tocantinópolis não dispunha de hospital.

Com a compreensiva ajuda dos habitantes, inicie o trabalho em condições difíceis, chegando, com o tempo, a instalar um pequeno hospital em Porto Franco. Doentes e acidentados procuravam socorro vindos de longínquos recantos, muitas vezes sem dispor de transporte adequado. Atendi também a numerosos chamados, viajando pelas precárias estradas e caminhos do sertão, ora em veículos, ora a pé. Sempre contei com a boa vontade e colaboração dos moradores e tornei-me amigo de todos. Muitas pessoas foram atendidas sem que dispusessem um só tostão para as despesas.

Ficou então comprovado que bastava um pouco de interesse pela saúde do povo e pelo progresso das regiões atrasadas, para que o governo resolvesse, com a aplicação de alguns recursos, muitos problemas daquela população e minorasse seus males. No entanto, os generais da ditadura e as autoridades por eles nomeadas nunca se preocuparam em ajudar a pobreza. Só se lembravam do povo por ocasião das demagógicas campanhas eleitorais ou na cobrança de impostos.

Era insuficiente um só médico para atender ao número de clientes que aumentava a cada dia. Havia necessidade de um hospital bem aparelhado, com instalações melhores, energia elétrica permanente, aparelho de raio X, oxigênio, etc. Muitas doenças poderiam ser evitada se o governo fornecesse verbas e realizasse campanhas educativas.

Numerosas enfermidades eram causadas pela má alimentação, principalmente das crianças. Havia casos em que os pacientes atendidos não podiam adquirir os remédios indicados, por causa do seu elevado preço. Tal situação continua até hoje, inalterada no essencial.

Na convivência com a população de Porto Franco, Tocantinópolis e Estreito, aprendi a conhecer seus problemas. São cidades pobres cujas prefeituras não contam com recursos suficientes para realizar obras que melhorem a vida do povo, como a pavimentação de ruas, instalação de redes de esgoto e água encanada. A energia elétrica disponível é precária e incerta. São insuficientes as escolas públicas, cujos professores, além de contarem com vencimentos muito baixos, só os recebem com vários meses de atraso. Lembro bem que os habitantes de Porto Franco mantinham seu ginásio com grande esforço, às próprias custas, sem a ajuda do governo. O grosso dos impostos recolhidos nos municípios ficam retidos pela administração federal e estadual, o que limita as verbas disponíveis para a realização de benfeitorias necessárias. Há grande falta de empregos, sendo em geral os salários muito baixos. Isso leva muitos jovens a deixarem suas familias para vir ganhar a vida nas cidades maiores e numerosas moças pobres caiem na prostituição. Mesmo os poucos que conseguem concluir os cursos ginasial e colegial, se quiserem prosseguir seus estudos, precisam abandonar a região, porque lá não existem faculdades. Assim, a juventude local não tem condições de desenvolver suas capacidades de trabalho e não pode colaborar para o progresso de sua terra. Vê-se limitada a uma vida sem futuro e sem quaisquer perspectivas.

A população mais pobre, além de viver na miséria, atravessa uma situação de insegurança sobre o dia de amanhã sobre a alimentação e educação de seus filhos, pois as possibilidades de trabalho são poucas e incertas, com ganhos reduzidos.

Inconformado com tal situação dramática, que se agrava com o tempo, comecei a denunciar o descaso dos governantes em face das dificuldades do povo, a reivindicar recursos para a assistência médica, o que me tornou alvo das perseguições das autoridades.

Vivia-se, então como agora, sob uma ditadura feroz, sob o domínio dos militares, que não toleram vozes discordantes de sua política, não admitem a verdadeira oposição popular, oprimem o povo, prendem, torturam ou matam os patriotas, aqueles que lutam pelo progresso e se pronunciam em defesa do povo pobre.

Forçado a deixar a região do Tocantins, não pude, então, explicar aos amigos as causas do meu afastamento, nem atender aos reclamos da população, inclusive de sua Excelência Reverendíssima, o senhor Bispo de Tocantinópolis e outras pessoas de destaque, capazes de compreender o prejuízo que acarretaria a falta de médico no lugar. As demonstrações de apoio e propostas de ajuda que recebi então, são claro indício da necessidade de maior assistência médica para o interior do nosso País. Ainda hoje sou grato aos moradores de Porto Franco e cidades vizinhas por aquelas atitudes.

Desde aquela época, em fins de 1968, estive radicado nas proximadades da localidade de São Geraldo, em frente a Xambioá, onde me dediquei à assistência médica e ao comércio de medicamentos. Passei, assim, a residir em zona extremamente abandonada pelas autoridades federais e estaduais, carente das mínimas condições para que seu povo tenha uma vida sadia e feliz. Seus moradores enfrentam enorme dificuldade na derrubada das matas, no serviço de roça, no trabalho nos castanhais e fazendas, no garimpo e no marisco. Não conseguem, entretanto, melhorar de vida, alimentado-se mal, são atingidos pelas doenças e não podem consultar um médico ou comprar os remédios necessários.

Muitas crianças crescem sem escolas, não há estradas e os poucos caminhos existentes foram abertos pelos próprios moradores. Numerosos posseiros têm sido expulsos de suas terras por grileiros ambiciosos, com a ajuda de bate-paus e soldados, que maltratam e humilham os lavradores.

Em abril último, agravaram-se os sofrimentos daquela população, com a feroz investida de numerosas tropas do Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar do Pará, contra muitos moradores ali radicados. Apoiados por aviões, helicópteros e lanchas equipadas com armas modernas, essas tropas prenderam e espancaram muitos lavradores, assassinaram outros, queimaram suas casas e paióis, saquearam suas propriedades e continuam, ainda hoje, sua perseguição, perturbando a vida da população e procurando semear o terror naquela área.

Entretanto, muitos perseguidos decidiram não se entregar, refugiaram-se nas vastas matas ali existentes e armaram-se com o que puderam para enfrentar a violência das forças armadas da ditadura. Também perseguido, juntei-me a eles, organizamo-nos, e hoje constituímos uma força armada disposta a lutar, não só pela própria sobrevivência, mas pelos interesses do povo, pelo progresso do interior, pela derrubada da ditadura militar e instauração de um governo democrático, que conduza nosso país pelo caminho da prosperidade, da liberdade e do bem-estar.

Nossas forças armadas, as Forças Guerrilheiras do Araguaia, estão lutando há cinco meses no sul do Pará, norte de Goiás e oeste do Maranhão e já tiveram vários choques com os soldados da ditadura, tendo-lhes causado perdas em mortos e feridos.

Elaboramos também um programa político, baseado nas necessidades mais prementes da população, divulgado em manifesto intitulado “Em Defesa do Povo Pobre e pelo Progresso do Interior”. Em torno desse programa foi organizado o “Movimento de Libertação do Povo” (MLP), do qual participarão todas as pessoas, tanto as mais pobres –peões, castanheiros, mariscadores, garimpeiros, posseiros – como estudantes, funcionários, comerciantes ou qualquer elemento que deseje lutar pela liberdade, a emancipação nacional e progresso das regiões atrasadas. Dirijo-me aos amigos e a toda a população de Porto Franco, Tocantinópolis e Estreito, bem como aos conhecidos dos municípios de Carolina, Imperatriz, Araguatins, Itaguatins, Xambioá e Araguaina, conclamando-os a participarem desta luta.

As Forças Guerrilheiras do Araguaia estão prontas a receber todo injustiçado e perseguido, todo revoltado e inconformado com a atual situação, desde que queira empunhar armas para libertar o Brasil. Aceitam, também, qualquer colaboração, seja como ajuda material, apoio político ou divulgação do programa do MLP.

Com as mais variadas formas de participação nessa luta patriótica crescerá o Movimento de Libertação do Povo, aumentará sua influência e engrossará suas fileiras.

Estou certo de que a grande maioria da população da região juntar-se-á à luta de todo o povo brasileiro por um governo realmente popular e democrático, por um país livre e próspero.

Em algum lugar das matas do Araguaia, 12 de setembro de 1972

JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO

Peço a quem tomar conhecimento desta carta, divulga-la entre seus amigos e conhecidos.

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